Hoje, aos 29 anos, sou terapeuta, esposa, mãe de dois filhos e uma mulher profundamente apaixonada por compreender a mente, as emoções e os caminhos que nos levam de volta a quem realmente somos.
Mas, antes de tudo isso, eu fui apenas uma menina cheia de sonhos, desejos e perguntas.
Uma taurina nata: determinada, teimosa, intensa e difícil de convencer quando acreditava em alguma coisa. Com uma Lua em Sagitário que sempre fez com que eu sentisse tudo de forma expansiva, as alegrias, as dores, as revoltas e também a esperança. E com meu ascendente em Gêmeos, desde cedo encontrei na palavra uma forma de existir. Sempre amei conversar, questionar, comunicar, ensinar e tentar compreender o mundo por meio das ideias.
Minha adolescência foi marcada por muita rebeldia e por uma revolta que, na época, eu ainda não sabia nomear.
Comecei a questionar meus pais, confrontar suas escolhas, reivindicar aquilo que acreditava que deveria ter recebido e culpá-los por muitas das dores que carregava. Eu olhava para a minha história com os olhos de uma filha ferida, incapaz de compreender que, por trás de cada pai e de cada mãe, também existem pessoas atravessadas por suas próprias histórias, faltas e limitações.
Aos 18 anos, conheci o Léo. Poucos meses depois, descobrimos que estávamos esperando nossa primeira filha. Em pleno retorno dos meus nodos lunares, a vida parecia me conduzir rapidamente para um destino que eu ainda nem sabia se estava pronta para viver.
Em um intervalo muito curto, eu me vi casando na igreja, me tornando esposa, mãe e dona de casa. Tudo ao mesmo tempo.
E foi a maternidade que colocou diante de mim um dos espelhos mais transformadores da minha vida.
Ao educar minha filha, comecei a perceber que carregava dentro de mim muitos dos comportamentos que um dia critiquei nos meus pais. Eu me vi repetindo reações, medos, rigidez e padrões que jurava nunca reproduzir. Aos poucos, compreendi que aquilo que tanto rejeitamos também pode continuar vivendo dentro de nós quando não é reconhecido e elaborado.
Foi assim que comecei a enxergá-los de outra forma.
A maternidade me ensinou a compreender, aceitar e perdoar. Não porque tudo o que aconteceu deixou de importar, mas porque percebi que permanecer presa à culpa e à revolta não mudaria a minha história. Eu precisava dar um novo significado a ela.
Quando minha filha mais velha, a Maria Luisa, completou três anos, comecei a trabalhar como secretária em um escritório. Quando ela fez quatro, descobri minha segunda gestação.
Foi durante a gravidez do José Alexandre que vivi aquilo que hoje reconheço como meu despertar espiritual.
Por fora, minha vida parecia seguir seu curso. Mas, por dentro, eu sentia que tudo estava fora do lugar. Eu já não conseguia ignorar os vazios, as perguntas e a sensação de que existia uma parte de mim esperando para ser encontrada.
Comecei a buscar respostas nas terapias holísticas e me apaixonei profundamente por aquele universo. Não porque ele me ofereceu soluções prontas, mas porque me ensinou a olhar para dentro com mais consciência.
Vieram muitos processos de cura, perdão, liberação e reconciliação com a minha própria história. Aos poucos, compreendi que despertar não é se tornar alguém que nunca fomos. É retirar as camadas construídas pela dor, pelo medo e pelas expectativas até conseguirmos reconhecer quem sempre esteve ali.
Em 2021, comecei minhas formações profissionais, e meu filho mais novo tinha apenas dois meses.
Quando minha licença-maternidade terminou, começou também a minha jornada como empreendedora. Abri meu próprio negócio como terapeuta e construí meu estúdio holístico, transformando tudo aquilo que um dia me atravessou em uma forma de acolher e auxiliar outras pessoas.
Mas a verdade é que a terapeuta não nasceu apenas dentro de uma formação.
Ela nasceu da menina que questionava tudo.
Da adolescente que sentia demais e não sabia o que fazer com o que sentia.
Da filha que precisou olhar novamente para os próprios pais.
Da mãe que reconheceu seus padrões no reflexo dos filhos.
Da mulher que percebeu que não poderia construir uma realidade diferente enquanto continuasse vivendo a partir das mesmas feridas.
Hoje, compreendo que nenhuma parte da minha história foi desperdiçada.
Cada experiência me conduziu até este trabalho. Cada desconforto me fez buscar mais profundamente. Cada fase me ensinou que nós não estamos condenados a repetir aquilo que recebemos.
Podemos olhar para a nossa história sem negar o que aconteceu e, ainda assim, escolher o que faremos com ela.
Foi por isso que transformei minha própria busca em propósito.
Hoje, meu trabalho é auxiliar outras pessoas a compreenderem por que pensam, sentem e agem como agem. A reconhecerem as raízes dos seus padrões, recuperarem o próprio poder de escolha e participarem conscientemente da construção da vida que desejam viver.
Porque eu acredito que despertar não é fugir de quem fomos.
É integrar nossa história, assumir a responsabilidade pelo que faremos a partir dela e perceber que, em algum momento, precisamos deixar de ser apenas resultado do que vivemos para nos tornarmos autores daquilo que ainda podemos construir.